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Conferência 65 anos de Câmara Luso-Alemã – O impacto dos Shared Service Centers na economia portuguesa

24.05.19 AHK-Kammernews

No âmbito das comemorações do seu 65º aniversário, a Câmara Luso-Alemã organizou há poucos dias a primeira de um conjunto de quatro conferências cujo objetivo é discutir temas de relevância para as relações económicas entre Portugal e a Alemanha.

Ao longo de várias sessões e mesas redondas, especialistas nacionais e internacionais analisaram em pormenor o desenvolvimento dos Shared Service Centers na economia portuguesa e as condições necessárias para que este setor mantenha e, se possível, aumente a sua relevância.

Peter Händel, Vice-Presidente da CCILA, deu início à conferência com um discurso no qual destacou o impacto dos Shared Service Centers em quatro aspetos fundamentais da economia – a criação de emprego, a ocupação de espaços de escritórios, o facto de estes colocarem Portugal no radar das empresas de Tecnologias de Informação e na geração de riqueza.

De seguida, Werner Zeitlberger, especialista de The Hackett Group, abordou a competição entre vários países, em particular os europeus como Portugal, a Polónia ou os países bálticos, para atraírem os investidores e apresentou algumas das estratégias adotadas. Zeitlberger deixou uma importante mensagem para os empresários do setor e os decisores políticos: os Shared Service Centers necessitam de um ambiente político favorável que apoie o seu desenvolvimento e que deve contar com o empenho da comunidade empresarial.

Alexander von Thielmann, da Siemens AG, explicou que hoje os Shared Service Centers são um modelo de negócios ao qual numerosas empresas recorrem. Mas, para alcançarem – e manterem o sucesso – é necessário que se mantenham ágeis e se adaptem com celeridade às alterações tecnológicas.

Werner Zeitlberger regressou à presença dos participantes para tratar de um tema fundamental no âmbito dos Shared Service Centers – os recursos humanos. Se, por um lado, a digitalização tem como consequência direta o desaparecimento de postos de trabalho que deixam de ser necessários num novo contexto, ela também cria novos empregos, que implicam novas carreiras e novas oportunidades. Mas também novos desafios, pois colocam diferentes exigências aos colaboradores que têm que ser preparados de outra forma.

Após as primeiras apresentações do dia, seguiu-se a Mesa Redonda “Human resources in the sector in Portugal”, que reuniu representantes de empresas e instituições de ensino e foi moderada pelo Diretor Executivo da CCILA, Hans-Joachim Böhmer. Adriana Alves (Volkswagen Group Services Portugal), Alf Franzoni (Siemens GBS Portugal) e Nuno Ferreira (Europcar Mobility Group), partilharam as suas experiências no estabelecimento de centros de shared services em Portugal. Embora os custos possam ser um fator determinante numa fase inicial de qualquer projeto, a principal razão para a escolha de Portugal no caso destas empresas foi a disponibilidade de profissionais altamente qualificados nas suas áreas de especialização e com excelentes conhecimentos linguísticos. No entanto, todos estes responsáveis manifestaram a sua preocupação em relação ao futuro e à capacidade de as instituições de ensino conseguirem formar o número de profissionais necessários no atual quadro de ensino.

Já os representantes das instituições de ensino – Pedro Santa-Clara (Nova SBE), Miguel Portela (Universidade do Minho) e Fernando Bação (Nova IMS) – mostraram-se unânimes num ponto: a colaboração entre empresas e universidades é fundamental, porque permite que os programas de ensino sejam adaptados às necessidades das empresas. Ao mesmo tempo, é necessário a pressão das empresas e também de instituições como as Câmaras de Comércio junto do Governo para alterar aspetos como o numerus clausus, para que mais profissionais possam chegar ao mercado em setores relevantes como as TI.

Foi também destacado que os licenciados representam apenas 17 porcento da força de trabalho, pelo que é fundamental não descurar a formação dos técnicos de nível intermédio.

A segunda parte da Conferência iniciou-se com duas intervenções específicas sobre o mercado português. Ana Costa (aicep Portugalglobal) e Ana Margarida Figueiredo (Câmara Municipal de Lisboa).

Ana Costa revelou que os Shared Services em Portugal são, atualmente, marcados pelo investimento francês, embora a presença alemã no setor tenha mais que duplicado nos últimos três anos. O setor emprega, na sua totalidade, cerca de 57 mil pessoal que servem mercados tão diversos como os Estados Unidos, Canadá, o Brasil ou os países europeus.

A representante da cidade de Lisboa, Ana Margarida Figueiredo, deu a conhecer a estratégia da cidade para a captação de investimento, estratégia essa que passa pela criação de condições adequadas a um bom ambiente empresarial. O resultado desta estratégia está à vista: em 2018 foram criadas em Lisboa mais de sete mil novas empresas, das quais mais de 2400 em atividades de conhecimento intensivo.

O caso da Siemens Portugal, uma das empresas que mais tem investido no setor no país, foi apresentado por Alf Franzoni. A instalação em Portugal de alguns dos Shared Service Centers da empresa foi a solução encontrada para aumentar a atividade das Siemens no país. Inicialmente movida por razões de custos, a empresa rapidamente reconheceu as vantagens que Portugal oferecia também a outros níveis. A atividade arrancou em 2010 com cerca de 80 pessoas, hoje emprega mais de 1200 colaboradores, em áreas de elevada especialização como as TI, mas também em áreas diversas como o setor imobiliário ou o financeiro.

A fechar os trabalhos da conferência dedicada ao tema dos Shared Services, realizou-se a Mesa Redonda “The next steps(s): the right measures to keep this industry growing and achieving new levels in Portugal”, na qual participaram Werner Zeitlberger, Alf Franzoni, Miguel Fontoura (aicep Portugalglobal) Márcio Araújo (Volkswagen Group Services Portugal), Nuno Ferreira e Fernando Bação.

Questionados sobre os desafios que o setor enfrenta atualmente, os oradores mostraram-se unânimes em apontar a questão dos recursos humanos, quer de um ponto de vista quantitativo – o mercado necessita de um fluxo constante de profissionais disponíveis, com a formação adequada –, quer de um ponto de vista qualitativo, uma vez que a crescente digitalização obriga a uma permanente atualização dos conhecimentos e à reestruturação dos programas de formação.

Outros aspetos a ter em conta, fundamentais ao crescimento do setor, são, sem dúvida, a disponibilidade de espaço para escritórios a custos razoáveis, bem como o custo de vida do país, que tem que ser comportável para as empresas e para os colaboradores, sobretudo se o setor tiver que recorrer à imigração de profissionais para ir ao encontro das suas necessidades.

Por fim, os presentes concordaram que seria de grande relevância existir uma associação que defendesse os interesses do setor e que fosse um fator-chave na promoção de Portugal enquanto localização de serviços partilhados, à semelhança do que já acontece atualmente em alguns países da Europa de Leste.

 

Veja aqui as apresentações:

Ana Costa (aicep Portugalglobal):

Shared Services in Portugal_AHK_Lisbon May 2019

 

Werner Zeitlberger (The Hackett Group):

Global Business Services in the digital era

The war for talents is on –success factor people, people, people…